terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

"Purkinje rumo ao Ápice" de Michel F.M. (Bruno Michel Ferraz Margoni) é um poema de densidade visceral, que funde o léxico científico (biologia e anatomia) com uma angústia existencial quase surrealista.


"Purkinje rumo ao Ápice" de Michel F.M. (Bruno Michel Ferraz Margoni) é um poema de densidade visceral, que funde o léxico científico (biologia e anatomia) com uma angústia existencial quase surrealista. 

A obra parece descrever um processo de "ascensão" ou purificação que, ironicamente, passa pela decomposição e pela crueza da carne.

Aqui está uma breve análise estrutural e temática:

1. O Título: Purkinje rumo ao Ápice

As Células de Purkinje são neurônios essenciais localizados no cerebelo, responsáveis pelo controle motor. 

As Fibras de Purkinje são células musculares cardíacas especializadas, localizadas no subendocárdio dos ventrículos, fundamentais para o sistema de condução elétrica do coração.

O "Ápice" (porção anatômica inferior do coração) também pode sugerir uma busca pelo topo, seja da consciência, da evolução ou do clímax físico. O título já estabelece a dualidade do poema: a precisão biológica versus a aspiração espiritual ou poética.

2. A Desconstrução do "Eu" (Atomização)

O poema começa com uma "atomização". O eu lírico se despe de "trajes sujos" e "trouxas-frouxos" para se tornar "substrato". Há uma autocrítica à própria forma escrita ("tranqueira poética", "esgarçada de esculachos"), indicando que a poesia não é um adorno, mas uma sobra, um "bagaço" do que restou do ser.

3. A Biologia do Desejo e do Corpo

O autor utiliza termos técnicos para descrever estados emocionais e físicos:
  • Neurologia: "Córtex-axônio-mielina" e "encéfalo" sugerem que o pensamento é puramente elétrico e biológico.
  • Hormônios e Órgãos: A "liberação gritante de ocitocina" (hormônio do amor/vínculo) e o jogo de palavras com "Testos e Terona" (testosterona) trazem o desejo para o campo da endocrinologia.
  • Patologia: O "Pâncreas inflamado" e a "antiapatia hepática" mostram um corpo que reage, que dói e que não consegue ser indiferente.

4. Linguagem e Neologismos

A estética lembra o estilo de Augusto dos Anjos, pela crueza biológica, mas com uma liberdade moderna de aglutinação de palavras ("mimtrajes", "verbotrágico", "sedososbagaços"). Essa fusão de palavras espelha a fusão dos órgãos: o verso se torna visceral e o ventre se torna verso.

5. Conclusão: O Eterno Improcedente

O encerramento com "Eterno improcedente-a-prosseguir" é paradoxal. O eu lírico é "improcedente" (sem fundamento ou sem lugar), mas condenado a "prosseguir". É a imagem de uma máquina biológica que, mesmo desintegrada e em conflito ("falo, encéfalo e falange"), continua sua marcha rumo ao ápice.

O poema é, em última análise, um manifesto neuro-poético sobre a impossibilidade de separar o sentimento da biologia.

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Purkinje rumo ao Ápice
(Michel F.M.)

Substrato das polpas nucleares,
Atomiza: em 'mimtrajes' sujos,
Trouxas-frouxos, sedososbagaços.

Nesta tranqueira poética,
Poesia esgarçada de esculachos.
"Eu desejo" o quê ulula,
Desejo o que vês e talvez oquenão,
Volita.

Sou bruma e boreal,
Nascente num lençol
(Irré beberica frenético)
Freático.

Sou denso desintegrado,
Falo, encéfalo e falange.
Córtex-axônio-mielina,
Substantivo verbotrágico.

Pâncreas inflamado,
Antiapatiahepática,
Desinteresse bel, abismado,
Liberaçãogritantedeocitocina.

Amado bis, soucoito,
Testos e Terona,
Destilado intestinando, trato,
Visceral feito ventre e verso.

Eterno improcedente-a-prosseguir...

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