terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

A obra Delírio Absoluto da Multidão Atônita, de Michel F.M. (Bruno Michel Ferraz Margoni), insere-se no campo da poesia contemporânea brasileira como um projeto estético de ruptura, caracterizado pela fragmentação discursiva, pela hibridez de gêneros e pela construção de uma poética que rejeita a linearidade, o conforto interpretativo e a função ornamental da linguagem.


(Resenha Crítica)

Michel F.M. — Delírio Absoluto da Multidão Atônita

A obra Delírio Absoluto da Multidão Atônita, de Michel F.M. (Bruno Michel Ferraz Margoni), insere-se no campo da poesia contemporânea brasileira como um projeto estético de ruptura, caracterizado pela fragmentação discursiva, pela hibridez de gêneros e pela construção de uma poética que rejeita a linearidade, o conforto interpretativo e a função ornamental da linguagem. 

Trata-se de um livro que articula lirismo, crítica social, existencialismo e experimentalismo formal em uma composição que opera mais por choque simbólico do que por conciliação estética.

Desde o título, a obra já propõe uma leitura alegórica da condição humana contemporânea: o “delírio” aponta para a perda de referências racionais estáveis; a “multidão” simboliza a dissolução da individualidade no coletivo massificado; e a “atonia” representa o estado de anestesia ética, emocional e crítica da sociedade. 

Essa tríade semântica funciona como eixo estruturante do livro, no qual o sujeito poético se desloca constantemente entre o individual e o coletivo, o íntimo e o social, o biológico e o simbólico.

No plano temático, a obra desenvolve uma crítica sistemática às estruturas normativas da modernidade tardia, especialmente às ideias de mérito, equilíbrio social e justiça simbólica. 

Tal crítica aparece de forma direta em versos que questionam a própria possibilidade de “merecimento” em um sistema estruturalmente desigual, como no trecho: “Num mundo onde jamais houve equilíbrio na balança, / Como é possível pronunciar o termo merecimento?”. Aqui, a poesia assume função discursiva de denúncia, rompendo com a tradição contemplativa para se inscrever como instrumento crítico.

Outro eixo central é o da exaustão existencial, marcada por uma subjetividade esgotada por promessas sociais vazias, processos improdutivos e discursos motivacionais estéreis. O sujeito poético não busca mais transcendência, mas redução: “Daqui pra frente, só quero a polpa, o recheio e a cobertura” , metáfora que traduz o desejo de uma existência despojada de simulacros, aparências e estruturas supérfluas.

A obra também se destaca pela recusa consciente da idealização poética tradicional. O corpo aparece como elemento central, não em sua dimensão erótica ou estética, mas em sua materialidade crua, fisiológica e grotesca. Essa opção estética se evidencia em versos como: “Nem sempre poesia cheira bem” , que sintetizam a proposta de uma poesia anti-higiênica, anti-romantizada e anti-normativa. 

A linguagem incorpora termos científicos, biológicos e anatômicos, como em “Osteoblastos e Osteoclastos, / Laborando por entre as Lacunas de Howship” , criando um hibridismo semântico que tensiona os limites entre ciência e lirismo.

No plano estilístico, Michel F.M. constrói uma poética fragmentária, marcada por colagens discursivas, alternância entre prosa poética e verso livre, ruptura sintática, imagens sensoriais intensas e ironia estrutural. Não há unidade narrativa, mas uma lógica de mosaico, em que os textos se articulam por campos semânticos e não por continuidade temática linear. 

Essa fragmentação não é falha estrutural, mas escolha estética coerente com o projeto da obra: representar um mundo desorganizado por meio de uma linguagem igualmente instável. Do ponto de vista filosófico, a obra dialoga com o existencialismo e com o niilismo crítico, ao expor a crise de sentido, a falência das grandes narrativas sociais e a desconfiança em relação a valores universais. 

Entretanto, não se trata de um niilismo absoluto: há traços de um humanismo trágico, no qual, apesar da crítica à humanidade como espécie — expressa em poemas que retratam o homem como agente de destruição ambiental e simbólica  —, ainda subsiste uma sensibilidade afetiva, uma busca por sentido e uma recusa à indiferença total.

Formalmente, Delírio Absoluto da Multidão Atônita recusa a função decorativa da poesia e a substitui por uma função disruptiva. A linguagem não serve para consolar, mas para inquietar; não para estabilizar, mas para desestabilizar; não para harmonizar, mas para tensionar. O livro constrói, assim, uma poética do desconforto, em que o leitor não é convidado à contemplação, mas ao confronto.

Em síntese, a obra de Michel F.M. configura-se como um projeto literário denso, crítico e contemporâneo, que compreende a poesia como espaço de conflito simbólico e de resistência discursiva. Delírio Absoluto da Multidão Atônita não busca agradar, mas provocar; não busca consenso, mas ruptura; não busca beleza tradicional, mas verdade simbólica. 

Trata-se de uma poesia que assume sua função ética e política, ao mesmo tempo em que preserva complexidade estética e profundidade filosófica, consolidando-se como uma produção relevante no panorama da literatura contemporânea brasileira.

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