terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

O poema "Pós-Cappuccino ou A Batalha Peristáltica no Sentido Hânus" é uma obra que utiliza o contraste entre a forma literária e o tema escatológico para gerar humor e crítica cotidiana.


O poema "Pós-Cappuccino ou A Batalha Peristáltica no Sentido Hânus" é uma obra que utiliza o contraste entre a forma literária e o tema escatológico para gerar humor e crítica cotidiana.

Aqui está uma breve análise dos principais pontos:

1. O Contraste de Estilos (O Nobre vs. O Baixo)

A maior força do texto vem da justaposição: o autor utiliza um vocabulário épico, quase militar ou científico, para descrever um ato biológico trivial (e tabu). Termos como "torpedo plutônico""proporções soviéticas" e "fidedigno profissional da logística" elevam o tom da narrativa, criando um efeito cômico ao colidir com a realidade do "fedor putrefato".

2. A Metáfora da Logística e da Guerra

O autor transforma o sistema digestório em um campo de batalha e uma empresa de entregas:
  • A Batalha: Sugerida pelo título e pelo "gás mostarda", remete ao esforço físico e à "libertação" de um "encarceramento" (a prisão de ventre).
  • A Logística: O ato é descrito como uma "remessa enviada com sucesso", onde a natureza é o "destinatário". Essa despersonalização torna a cena absurdamente técnica.

3. Ironia Metalinguística

Nos versos "Seria até mesmo poético / Se não fosse o fedor" e "Nem sempre poesia cheira bem", o eu lírico brinca com a própria definição de arte. Ele desafia a ideia de que a poesia deve tratar apenas do sublime ou do belo, defendendo que a experiência humana — mesmo em seus momentos mais viscerais e "olfatofóbicos" — merece ser registrada.

4. O Cotidiano Urbano

O desfecho traz o leitor de volta à realidade prosaica: é uma "manhã de terça" e há pressa. A "maratona" e os "recordes" mencionam não apenas o tempo no banheiro, mas a correria da vida adulta. O alívio físico é o que permite ao protagonista continuar sua rotina, mesmo que "propositadamente atrasado".
Resumo: É um poema heroicomitante moderno que celebra o alívio escatológico como uma vitória épica sobre a inércia biológica.

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As metáforas deste poema são o motor do humor, pois transformam um evento biológico comum em uma narrativa de alta escala e importância técnica. O autor utiliza campos semânticos distintos (Guerra, Engenharia e Logística) para camuflar a escatologia.

Aqui estão as principais metáforas analisadas por categorias:

1. Metáforas Militares e de Destruição
O autor trata o corpo como uma potência em conflito.

"Batalha Peristáltica": O movimento involuntário do intestino é visto como uma luta contra a resistência física.
"Torpedo plutônico de proporções soviéticas": Esta é a metáfora central. 

"Plutônico" evoca algo profundo (do deus Plutão) ou radioativo/nuclear; "soviéticas" sugere algo bruto, pesado e monumental. O excremento é visto como um projétil de destruição em massa.

"Gás mostarda": Uma referência direta às armas químicas da 1ª Guerra Mundial, usada para descrever o odor de forma hiperbólica e perigosa.

2. Metáforas de Encarceramento e Liberdade

A prisão de ventre é tratada como uma questão de direitos humanos ou política.
"Forma mais cruel de encarceramento": A impossibilidade de evacuar é metaforizada como uma tortura ou prisão política, elevando o desconforto físico a um drama existencial.

"Descarga emocional": O alívio físico é comparado a um desabafo psicológico. O "torpedo" não é apenas matéria, é uma mensagem carregada de sentimentos reprimidos (literais e figurados).

3. Metáforas de Logística e Tecnologia

O processo de excreção é descrito como uma operação industrial eficiente.
"Fidedigno profissional da logística / Remessa enviada": O corpo não é apenas carne, é uma empresa de transporte. O ato de evacuar vira um serviço de entrega ("shipping") onde o sucesso é medido pela conclusão do envio.

"Receptáculo derradeiro": Uma forma elegante e solene de se referir ao vaso sanitário, tratando-o como o destino final de uma jornada épica.

"Dispositivo barulhento": O corpo, naquele momento, é visto como uma máquina ou um gadget que emite sons e sinais, perdendo a "humanidade" para se tornar puro mecanismo.

4. Metáforas Espaciais e de Aviação

"Pantalonas decolaram": O ato de subir as calças é descrito como o levantamento de voo de uma aeronave, sugerindo que, após o alívio, o autor está pronto para "voar" ou voltar à sua dinâmica social com "estabilidade".

O Efeito de Sentido

Essas metáforas servem para o distanciamento: ao descrever o baixo corpóreo com termos da Guerra Fria ou da engenharia, o autor cria uma "cortina de fumaça" intelectual que torna o tema digerível e hilário.

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O uso de referências históricas, especialmente a alusão ao "soviético", funciona como um amplificador de escala. 

Na literatura, quando algo é descrito como soviético, evoca-se imediatamente a estética do Monumentalismo — grandes blocos de concreto, força bruta, resistência e uma escala que ignora o indivíduo em prol do coletivo.

Aqui está como essas referências constroem a "monumentalidade" do poema:

1. O Gigantismo Soviético

Ao classificar o "torpedo" como de "proporções soviéticas", o autor utiliza a memória histórica da Guerra Fria e da URSS para sugerir algo:
Massivo e Indestrutível: Como um tanque T-34 ou os prédios de arquitetura estalinista.

Bruto: Algo que não tem refinamento estético, mas que se impõe pelo tamanho e pelo peso.

Histórico: Eleva o ato a um evento que poderia estar nos livros de história, uma "grande obra" de engenharia biológica.

2. A Guerra Fria e a Tecnologia Plutônica

O termo "plutônico" (que refere-se a Plutão, deus do submundo, mas também ao Plutônio das bombas nucleares) combinado com o termo "soviético" cria a imagem de um míssil balístico:

A "entrega" não é apenas um descarte, é uma operação estratégica de alto risco.
Isso gera o humor pelo absurdo: a ideia de que um banheiro de manhã de terça-feira abriga um poder bélico comparável ao de uma superpotência mundial.

3. O "Gás Mostarda" e a Tragédia Histórica

A menção ao Gás Mostarda (arma química da 1ª Guerra Mundial) traz uma monumentalidade sombria:
Transforma o odor em um "agente químico" capaz de interditar áreas.
Retira o foco do "mau cheiro" comum e o coloca no patamar de uma catástrofe química histórica, tornando a situação muito mais dramática do que a realidade sugere.

4. A Maratona e o Recorde

Embora a maratona seja uma referência à Grécia Antiga, ela é usada aqui para dar um ar de conquista olímpica:
O eu lírico não apenas foi ao banheiro; ele "pulverizou recordes".

Isso transforma o esforço físico em um feito atlético histórico, onde o indivíduo luta contra o cronômetro (o atraso da manhã de terça) e contra os próprios limites.

O Efeito Final

Essas referências tiram o poema do plano íntimo (o banheiro de casa) e o lançam no plano global/histórico. O efeito é uma heroicização do ridículo: quanto mais importante é o termo histórico usado, mais engraçado se torna o fato de que ele está sendo usado para descrever... um cappuccino que não caiu bem.

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Pós-Cappuccino
ou A Batalha Peristáltica
no Sentido Hânus
(Michel F.M.)

Numa radiante abafada vulcânica manhã,
Após dias de ausência por parte das fibras,
A prisão de ventre, é a forma mais cruel
De encarceramento.

Liquidado o último prato sujo,
Pia molhada vazia,
Louça úmida,
Secava.

Fui ao toillet,
Enviei um torpedo plutônico, de proporções soviéticas,
Dispositivo barulhento,
Emitindo sons ridículos e aromáticos.

Esta mensagem não seria correspondida,
A descarga emocional contida nela
Era singular
E jamais se repetiria,
Em igual magnitude;

O desafortunado papel de péssima qualidade castigado,
Despencou no receptáculo derradeiro;

As pantalonas decolaram,
Até ganhar estabilidade, no cinto afivelado.

Seria até mesmo poético,
Se não fosse o fedor putrefato,
De molho à bolonhesa,
Com gás mostarda.

Mas enfim,
Nem sempre poesia cheira bem.

E com relação ao mecanismo de ejeção,
Fidedigno profissional da logística;
Remessa enviada com sucesso.

Agora caberia aos recursos naturais
Cumprirem seu ofício,
Fazendo a recepção,
Servindo como destinatários.

Era uma manhã de terça,
Recordes pulverizados na maratona.
Como de costume,
Eu estava propositalmente atrasado.

(Delírio Absoluto da Multidão Atônita - Trilogia Mestre dos Pretextos)

A obra Delírio Absoluto da Multidão Atônita, de Michel F.M. (Bruno Michel Ferraz Margoni), insere-se no campo da poesia contemporânea brasileira como um projeto estético de ruptura, caracterizado pela fragmentação discursiva, pela hibridez de gêneros e pela construção de uma poética que rejeita a linearidade, o conforto interpretativo e a função ornamental da linguagem.


(Resenha Crítica)

Michel F.M. — Delírio Absoluto da Multidão Atônita

A obra Delírio Absoluto da Multidão Atônita, de Michel F.M. (Bruno Michel Ferraz Margoni), insere-se no campo da poesia contemporânea brasileira como um projeto estético de ruptura, caracterizado pela fragmentação discursiva, pela hibridez de gêneros e pela construção de uma poética que rejeita a linearidade, o conforto interpretativo e a função ornamental da linguagem. 

Trata-se de um livro que articula lirismo, crítica social, existencialismo e experimentalismo formal em uma composição que opera mais por choque simbólico do que por conciliação estética.

Desde o título, a obra já propõe uma leitura alegórica da condição humana contemporânea: o “delírio” aponta para a perda de referências racionais estáveis; a “multidão” simboliza a dissolução da individualidade no coletivo massificado; e a “atonia” representa o estado de anestesia ética, emocional e crítica da sociedade. 

Essa tríade semântica funciona como eixo estruturante do livro, no qual o sujeito poético se desloca constantemente entre o individual e o coletivo, o íntimo e o social, o biológico e o simbólico.

No plano temático, a obra desenvolve uma crítica sistemática às estruturas normativas da modernidade tardia, especialmente às ideias de mérito, equilíbrio social e justiça simbólica. 

Tal crítica aparece de forma direta em versos que questionam a própria possibilidade de “merecimento” em um sistema estruturalmente desigual, como no trecho: “Num mundo onde jamais houve equilíbrio na balança, / Como é possível pronunciar o termo merecimento?”. Aqui, a poesia assume função discursiva de denúncia, rompendo com a tradição contemplativa para se inscrever como instrumento crítico.

Outro eixo central é o da exaustão existencial, marcada por uma subjetividade esgotada por promessas sociais vazias, processos improdutivos e discursos motivacionais estéreis. O sujeito poético não busca mais transcendência, mas redução: “Daqui pra frente, só quero a polpa, o recheio e a cobertura” , metáfora que traduz o desejo de uma existência despojada de simulacros, aparências e estruturas supérfluas.

A obra também se destaca pela recusa consciente da idealização poética tradicional. O corpo aparece como elemento central, não em sua dimensão erótica ou estética, mas em sua materialidade crua, fisiológica e grotesca. Essa opção estética se evidencia em versos como: “Nem sempre poesia cheira bem” , que sintetizam a proposta de uma poesia anti-higiênica, anti-romantizada e anti-normativa. 

A linguagem incorpora termos científicos, biológicos e anatômicos, como em “Osteoblastos e Osteoclastos, / Laborando por entre as Lacunas de Howship” , criando um hibridismo semântico que tensiona os limites entre ciência e lirismo.

No plano estilístico, Michel F.M. constrói uma poética fragmentária, marcada por colagens discursivas, alternância entre prosa poética e verso livre, ruptura sintática, imagens sensoriais intensas e ironia estrutural. Não há unidade narrativa, mas uma lógica de mosaico, em que os textos se articulam por campos semânticos e não por continuidade temática linear. 

Essa fragmentação não é falha estrutural, mas escolha estética coerente com o projeto da obra: representar um mundo desorganizado por meio de uma linguagem igualmente instável. Do ponto de vista filosófico, a obra dialoga com o existencialismo e com o niilismo crítico, ao expor a crise de sentido, a falência das grandes narrativas sociais e a desconfiança em relação a valores universais. 

Entretanto, não se trata de um niilismo absoluto: há traços de um humanismo trágico, no qual, apesar da crítica à humanidade como espécie — expressa em poemas que retratam o homem como agente de destruição ambiental e simbólica  —, ainda subsiste uma sensibilidade afetiva, uma busca por sentido e uma recusa à indiferença total.

Formalmente, Delírio Absoluto da Multidão Atônita recusa a função decorativa da poesia e a substitui por uma função disruptiva. A linguagem não serve para consolar, mas para inquietar; não para estabilizar, mas para desestabilizar; não para harmonizar, mas para tensionar. O livro constrói, assim, uma poética do desconforto, em que o leitor não é convidado à contemplação, mas ao confronto.

Em síntese, a obra de Michel F.M. configura-se como um projeto literário denso, crítico e contemporâneo, que compreende a poesia como espaço de conflito simbólico e de resistência discursiva. Delírio Absoluto da Multidão Atônita não busca agradar, mas provocar; não busca consenso, mas ruptura; não busca beleza tradicional, mas verdade simbólica. 

Trata-se de uma poesia que assume sua função ética e política, ao mesmo tempo em que preserva complexidade estética e profundidade filosófica, consolidando-se como uma produção relevante no panorama da literatura contemporânea brasileira.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

A obra "Delírio Absoluto da Multidão Atônita", de autoria de Michel F.M. (pseudônimo de Bruno Michel Ferraz Margoni), é o primeiro volume da trilogia intitulada Mestre dos Pretextos.


A obra "Delírio Absoluto da Multidão Atônita", de autoria de Michel F.M. (pseudônimo de Bruno Michel Ferraz Margoni), é o primeiro volume da trilogia intitulada Mestre dos Pretextos. 

Abaixo, uma breve análise dos elementos centrais da obra:

Contexto e Temática

O livro é uma compilação que transita entre a poesia, a filosofia e a crônica social. A obra parece ter sido gestada ou influenciada por momentos de alta tensão social e política, incluindo reflexões sobre liberdade de expressão e dilemas éticos. 

Estilo Literário
  • Experimentalismo: O autor utiliza uma linguagem que muitas vezes ignora normas literárias tradicionais ou modelos clássicos, priorizando a expressão bruta de sentimentos e ideias.
  • Abstração e Filosofia: Como filósofo de formação, Michel F.M. impregna seus versos com questionamentos existenciais, tratando a "multidão" não apenas como um grupo de pessoas, mas como uma entidade em estado de choque (atônita) diante da realidade.
  • Lirismo Caótico: O título sugere uma visão da sociedade contemporânea como um organismo coletivo delirante, onde o caos é o fio condutor da narrativa poética. 

Estrutura

Publicada de forma independente pelo Clube de Autores, a obra é descrita como uma peça fundamental para entender a "trilogia do pretexto", onde o autor explora as justificativas humanas para suas ações e omissões. 

sexta-feira, 30 de abril de 2021

XVIII Prêmio Moutonnée de Poesia - Menção Honrosa e Publicação em Antologia (Concursos Literários 2008) - Michel F.M. ©


 


XVIII Prêmio Moutonnée de Poesia - Menção Honrosa e Publicação em Antologia (Concursos Literários 2008) 


Título da obra: A Fábula do Lobo que Amou a Lua - Michel F.M. ©


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