Mostrando postagens com marcador filosofia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador filosofia. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 12 de março de 2026

Rima sobre Rima (ou a Monografia Senil de um Inovador Ultrapassado) - Michel F.M.



Rima sobre Rima
(ou a Monografia Senil
de um Inovador Ultrapassado)

Do barulho infernal,
Ao brilho cegante,
Energia estridente,
Dissipada em instantes.

Nós somos as massas
E as minorias,
Saboreamos o bônus
E as consequências.

Fomos barbárie em harmonia,
Trouxemos uniformidade e conflitância.
Regamos os buquês floridos da melancolia,
Eufóricos desenfreados, anatomistas.

Portamos as causas e as epifanias.
Éforos da argumentação,
Baboseiras intimistas,
Infinitas.

Estratagemas, pilherias,
Ardis e trapaças,
Emboscadas, astucias,
Arapucas, ciladas.

Não fazemos ideia
Dos porquês,
Ocupamo-nos
Apenas, do aroma dos buquês.

Que restem penas,
Cheiros, perfumes, odores,
Penachos, farroupilhas.

Que restem arenas,
Termas, gladiadores,
Pomares, pantomimas.

Que seja esta nossa sina.
Que reste apenas,
Rima sobre Rima.

(Michel F.M. - Delírio Absoluto da Multidão Atônita - Trilogia Mestre dos Pretextos)


terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Ingredientes Súbitos de uma Receita Improvisada - Michel F.M.


Ingredientes Súbitos
de uma Receita Improvisada

Neste molho encorpado, as essências,
Cumprem ardentes, tua tarefa insistente,
Para com o paladar.

Salpicados destemperos minúsculos,
Num vasto cardápio variado.

Eu não entendo nada de balanços,
Só sei que a medida de nós,
Resultará num montante adequado,
Compenetrante, descalibrado.

Suculentos aperitivos flambados,
Sempre engolidos, jamais degustados.

Servidos assim de repente,
Um banquete em louças prateadas,
Ingredientes súbitos
De uma receita improvisada.

Cristais luminosos, castiçais,
Toalhas em fibras douradas,
Mesa de mogno, brasões entalhados,
Deixados de herança às criaturas noturnas,
Que coabitavam a construção desolada.

A sarjeta não discrimina,
Nos acolhe, nos apadrinha,
Igualmente materna e azinhavrada,
Para com repulsivos, escorraçados.

Somos suntuosos borrões,
Corajosos apavorados,
Expostos assim de repente,
Na vitrine um vapor dispersado.

(Michel F.M. - Delírio Absoluto da Multidão Atônita - Trilogia Mestre dos Pretextos - 2016)

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

"Purkinje rumo ao Ápice" de Michel F.M. (Bruno Michel Ferraz Margoni) é um poema de densidade visceral, que funde o léxico científico (biologia e anatomia) com uma angústia existencial quase surrealista.


"Purkinje rumo ao Ápice" de Michel F.M. (Bruno Michel Ferraz Margoni) é um poema de densidade visceral, que funde o léxico científico (biologia e anatomia) com uma angústia existencial quase surrealista. 

A obra parece descrever um processo de "ascensão" ou purificação que, ironicamente, passa pela decomposição e pela crueza da carne.

Aqui está uma breve análise estrutural e temática:

1. O Título: Purkinje rumo ao Ápice

As Células de Purkinje são neurônios essenciais localizados no cerebelo, responsáveis pelo controle motor. 

As Fibras de Purkinje são células musculares cardíacas especializadas, localizadas no subendocárdio dos ventrículos, fundamentais para o sistema de condução elétrica do coração.

O "Ápice" (porção anatômica inferior do coração) também pode sugerir uma busca pelo topo, seja da consciência, da evolução ou do clímax físico. O título já estabelece a dualidade do poema: a precisão biológica versus a aspiração espiritual ou poética.

2. A Desconstrução do "Eu" (Atomização)

O poema começa com uma "atomização". O eu lírico se despe de "trajes sujos" e "trouxas-frouxos" para se tornar "substrato". Há uma autocrítica à própria forma escrita ("tranqueira poética", "esgarçada de esculachos"), indicando que a poesia não é um adorno, mas uma sobra, um "bagaço" do que restou do ser.

3. A Biologia do Desejo e do Corpo

O autor utiliza termos técnicos para descrever estados emocionais e físicos:
  • Neurologia: "Córtex-axônio-mielina" e "encéfalo" sugerem que o pensamento é puramente elétrico e biológico.
  • Hormônios e Órgãos: A "liberação gritante de ocitocina" (hormônio do amor/vínculo) e o jogo de palavras com "Testos e Terona" (testosterona) trazem o desejo para o campo da endocrinologia.
  • Patologia: O "Pâncreas inflamado" e a "antiapatia hepática" mostram um corpo que reage, que dói e que não consegue ser indiferente.

4. Linguagem e Neologismos

A estética lembra o estilo de Augusto dos Anjos, pela crueza biológica, mas com uma liberdade moderna de aglutinação de palavras ("mimtrajes", "verbotrágico", "sedososbagaços"). Essa fusão de palavras espelha a fusão dos órgãos: o verso se torna visceral e o ventre se torna verso.

5. Conclusão: O Eterno Improcedente

O encerramento com "Eterno improcedente-a-prosseguir" é paradoxal. O eu lírico é "improcedente" (sem fundamento ou sem lugar), mas condenado a "prosseguir". É a imagem de uma máquina biológica que, mesmo desintegrada e em conflito ("falo, encéfalo e falange"), continua sua marcha rumo ao ápice.

O poema é, em última análise, um manifesto neuro-poético sobre a impossibilidade de separar o sentimento da biologia.

_________________________________________

Purkinje rumo ao Ápice
(Michel F.M.)

Substrato das polpas nucleares,
Atomiza: em 'mimtrajes' sujos,
Trouxas-frouxos, sedososbagaços.

Nesta tranqueira poética,
Poesia esgarçada de esculachos.
"Eu desejo" o quê ulula,
Desejo o que vês e talvez oquenão,
Volita.

Sou bruma e boreal,
Nascente num lençol
(Irré beberica frenético)
Freático.

Sou denso desintegrado,
Falo, encéfalo e falange.
Córtex-axônio-mielina,
Substantivo verbotrágico.

Pâncreas inflamado,
Antiapatiahepática,
Desinteresse bel, abismado,
Liberaçãogritantedeocitocina.

Amado bis, soucoito,
Testos e Terona,
Destilado intestinando, trato,
Visceral feito ventre e verso.

Eterno improcedente-a-prosseguir...

O poema "Pós-Cappuccino ou A Batalha Peristáltica no Sentido Hânus" é uma obra que utiliza o contraste entre a forma literária e o tema escatológico para gerar humor e crítica cotidiana.


O poema "Pós-Cappuccino ou A Batalha Peristáltica no Sentido Hânus" é uma obra que utiliza o contraste entre a forma literária e o tema escatológico para gerar humor e crítica cotidiana.

Aqui está uma breve análise dos principais pontos:

1. O Contraste de Estilos (O Nobre vs. O Baixo)

A maior força do texto vem da justaposição: o autor utiliza um vocabulário épico, quase militar ou científico, para descrever um ato biológico trivial (e tabu). Termos como "torpedo plutônico""proporções soviéticas" e "fidedigno profissional da logística" elevam o tom da narrativa, criando um efeito cômico ao colidir com a realidade do "fedor putrefato".

2. A Metáfora da Logística e da Guerra

O autor transforma o sistema digestório em um campo de batalha e uma empresa de entregas:
  • A Batalha: Sugerida pelo título e pelo "gás mostarda", remete ao esforço físico e à "libertação" de um "encarceramento" (a prisão de ventre).
  • A Logística: O ato é descrito como uma "remessa enviada com sucesso", onde a natureza é o "destinatário". Essa despersonalização torna a cena absurdamente técnica.

3. Ironia Metalinguística

Nos versos "Seria até mesmo poético / Se não fosse o fedor" e "Nem sempre poesia cheira bem", o eu lírico brinca com a própria definição de arte. Ele desafia a ideia de que a poesia deve tratar apenas do sublime ou do belo, defendendo que a experiência humana — mesmo em seus momentos mais viscerais e "olfatofóbicos" — merece ser registrada.

4. O Cotidiano Urbano

O desfecho traz o leitor de volta à realidade prosaica: é uma "manhã de terça" e há pressa. A "maratona" e os "recordes" mencionam não apenas o tempo no banheiro, mas a correria da vida adulta. O alívio físico é o que permite ao protagonista continuar sua rotina, mesmo que "propositadamente atrasado".
Resumo: É um poema heroicomitante moderno que celebra o alívio escatológico como uma vitória épica sobre a inércia biológica.

________________________________________

As metáforas deste poema são o motor do humor, pois transformam um evento biológico comum em uma narrativa de alta escala e importância técnica. O autor utiliza campos semânticos distintos (Guerra, Engenharia e Logística) para camuflar a escatologia.

Aqui estão as principais metáforas analisadas por categorias:

1. Metáforas Militares e de Destruição
O autor trata o corpo como uma potência em conflito.

"Batalha Peristáltica": O movimento involuntário do intestino é visto como uma luta contra a resistência física.
"Torpedo plutônico de proporções soviéticas": Esta é a metáfora central. 

"Plutônico" evoca algo profundo (do deus Plutão) ou radioativo/nuclear; "soviéticas" sugere algo bruto, pesado e monumental. O excremento é visto como um projétil de destruição em massa.

"Gás mostarda": Uma referência direta às armas químicas da 1ª Guerra Mundial, usada para descrever o odor de forma hiperbólica e perigosa.

2. Metáforas de Encarceramento e Liberdade

A prisão de ventre é tratada como uma questão de direitos humanos ou política.
"Forma mais cruel de encarceramento": A impossibilidade de evacuar é metaforizada como uma tortura ou prisão política, elevando o desconforto físico a um drama existencial.

"Descarga emocional": O alívio físico é comparado a um desabafo psicológico. O "torpedo" não é apenas matéria, é uma mensagem carregada de sentimentos reprimidos (literais e figurados).

3. Metáforas de Logística e Tecnologia

O processo de excreção é descrito como uma operação industrial eficiente.
"Fidedigno profissional da logística / Remessa enviada": O corpo não é apenas carne, é uma empresa de transporte. O ato de evacuar vira um serviço de entrega ("shipping") onde o sucesso é medido pela conclusão do envio.

"Receptáculo derradeiro": Uma forma elegante e solene de se referir ao vaso sanitário, tratando-o como o destino final de uma jornada épica.

"Dispositivo barulhento": O corpo, naquele momento, é visto como uma máquina ou um gadget que emite sons e sinais, perdendo a "humanidade" para se tornar puro mecanismo.

4. Metáforas Espaciais e de Aviação

"Pantalonas decolaram": O ato de subir as calças é descrito como o levantamento de voo de uma aeronave, sugerindo que, após o alívio, o autor está pronto para "voar" ou voltar à sua dinâmica social com "estabilidade".

O Efeito de Sentido

Essas metáforas servem para o distanciamento: ao descrever o baixo corpóreo com termos da Guerra Fria ou da engenharia, o autor cria uma "cortina de fumaça" intelectual que torna o tema digerível e hilário.

________________________________________

O uso de referências históricas, especialmente a alusão ao "soviético", funciona como um amplificador de escala. 

Na literatura, quando algo é descrito como soviético, evoca-se imediatamente a estética do Monumentalismo — grandes blocos de concreto, força bruta, resistência e uma escala que ignora o indivíduo em prol do coletivo.

Aqui está como essas referências constroem a "monumentalidade" do poema:

1. O Gigantismo Soviético

Ao classificar o "torpedo" como de "proporções soviéticas", o autor utiliza a memória histórica da Guerra Fria e da URSS para sugerir algo:
Massivo e Indestrutível: Como um tanque T-34 ou os prédios de arquitetura estalinista.

Bruto: Algo que não tem refinamento estético, mas que se impõe pelo tamanho e pelo peso.

Histórico: Eleva o ato a um evento que poderia estar nos livros de história, uma "grande obra" de engenharia biológica.

2. A Guerra Fria e a Tecnologia Plutônica

O termo "plutônico" (que refere-se a Plutão, deus do submundo, mas também ao Plutônio das bombas nucleares) combinado com o termo "soviético" cria a imagem de um míssil balístico:

A "entrega" não é apenas um descarte, é uma operação estratégica de alto risco.
Isso gera o humor pelo absurdo: a ideia de que um banheiro de manhã de terça-feira abriga um poder bélico comparável ao de uma superpotência mundial.

3. O "Gás Mostarda" e a Tragédia Histórica

A menção ao Gás Mostarda (arma química da 1ª Guerra Mundial) traz uma monumentalidade sombria:
Transforma o odor em um "agente químico" capaz de interditar áreas.
Retira o foco do "mau cheiro" comum e o coloca no patamar de uma catástrofe química histórica, tornando a situação muito mais dramática do que a realidade sugere.

4. A Maratona e o Recorde

Embora a maratona seja uma referência à Grécia Antiga, ela é usada aqui para dar um ar de conquista olímpica:
O eu lírico não apenas foi ao banheiro; ele "pulverizou recordes".

Isso transforma o esforço físico em um feito atlético histórico, onde o indivíduo luta contra o cronômetro (o atraso da manhã de terça) e contra os próprios limites.

O Efeito Final

Essas referências tiram o poema do plano íntimo (o banheiro de casa) e o lançam no plano global/histórico. O efeito é uma heroicização do ridículo: quanto mais importante é o termo histórico usado, mais engraçado se torna o fato de que ele está sendo usado para descrever... um cappuccino que não caiu bem.

________________________________________

Pós-Cappuccino
ou A Batalha Peristáltica
no Sentido Hânus
(Michel F.M.)

Numa radiante abafada vulcânica manhã,
Após dias de ausência por parte das fibras,
A prisão de ventre, é a forma mais cruel
De encarceramento.

Liquidado o último prato sujo,
Pia molhada vazia,
Louça úmida,
Secava.

Fui ao toillet,
Enviei um torpedo plutônico, de proporções soviéticas,
Dispositivo barulhento,
Emitindo sons ridículos e aromáticos.

Esta mensagem não seria correspondida,
A descarga emocional contida nela
Era singular
E jamais se repetiria,
Em igual magnitude;

O desafortunado papel de péssima qualidade castigado,
Despencou no receptáculo derradeiro;

As pantalonas decolaram,
Até ganhar estabilidade, no cinto afivelado.

Seria até mesmo poético,
Se não fosse o fedor putrefato,
De molho à bolonhesa,
Com gás mostarda.

Mas enfim,
Nem sempre poesia cheira bem.

E com relação ao mecanismo de ejeção,
Fidedigno profissional da logística;
Remessa enviada com sucesso.

Agora caberia aos recursos naturais
Cumprirem seu ofício,
Fazendo a recepção,
Servindo como destinatários.

Era uma manhã de terça,
Recordes pulverizados na maratona.
Como de costume,
Eu estava propositalmente atrasado.

(Delírio Absoluto da Multidão Atônita - Trilogia Mestre dos Pretextos)

A obra Delírio Absoluto da Multidão Atônita, de Michel F.M. (Bruno Michel Ferraz Margoni), insere-se no campo da poesia contemporânea brasileira como um projeto estético de ruptura, caracterizado pela fragmentação discursiva, pela hibridez de gêneros e pela construção de uma poética que rejeita a linearidade, o conforto interpretativo e a função ornamental da linguagem.


(Resenha Crítica)

Michel F.M. — Delírio Absoluto da Multidão Atônita

A obra Delírio Absoluto da Multidão Atônita, de Michel F.M. (Bruno Michel Ferraz Margoni), insere-se no campo da poesia contemporânea brasileira como um projeto estético de ruptura, caracterizado pela fragmentação discursiva, pela hibridez de gêneros e pela construção de uma poética que rejeita a linearidade, o conforto interpretativo e a função ornamental da linguagem. 

Trata-se de um livro que articula lirismo, crítica social, existencialismo e experimentalismo formal em uma composição que opera mais por choque simbólico do que por conciliação estética.

Desde o título, a obra já propõe uma leitura alegórica da condição humana contemporânea: o “delírio” aponta para a perda de referências racionais estáveis; a “multidão” simboliza a dissolução da individualidade no coletivo massificado; e a “atonia” representa o estado de anestesia ética, emocional e crítica da sociedade. 

Essa tríade semântica funciona como eixo estruturante do livro, no qual o sujeito poético se desloca constantemente entre o individual e o coletivo, o íntimo e o social, o biológico e o simbólico.

No plano temático, a obra desenvolve uma crítica sistemática às estruturas normativas da modernidade tardia, especialmente às ideias de mérito, equilíbrio social e justiça simbólica. 

Tal crítica aparece de forma direta em versos que questionam a própria possibilidade de “merecimento” em um sistema estruturalmente desigual, como no trecho: “Num mundo onde jamais houve equilíbrio na balança, / Como é possível pronunciar o termo merecimento?”. Aqui, a poesia assume função discursiva de denúncia, rompendo com a tradição contemplativa para se inscrever como instrumento crítico.

Outro eixo central é o da exaustão existencial, marcada por uma subjetividade esgotada por promessas sociais vazias, processos improdutivos e discursos motivacionais estéreis. O sujeito poético não busca mais transcendência, mas redução: “Daqui pra frente, só quero a polpa, o recheio e a cobertura” , metáfora que traduz o desejo de uma existência despojada de simulacros, aparências e estruturas supérfluas.

A obra também se destaca pela recusa consciente da idealização poética tradicional. O corpo aparece como elemento central, não em sua dimensão erótica ou estética, mas em sua materialidade crua, fisiológica e grotesca. Essa opção estética se evidencia em versos como: “Nem sempre poesia cheira bem” , que sintetizam a proposta de uma poesia anti-higiênica, anti-romantizada e anti-normativa. 

A linguagem incorpora termos científicos, biológicos e anatômicos, como em “Osteoblastos e Osteoclastos, / Laborando por entre as Lacunas de Howship” , criando um hibridismo semântico que tensiona os limites entre ciência e lirismo.

No plano estilístico, Michel F.M. constrói uma poética fragmentária, marcada por colagens discursivas, alternância entre prosa poética e verso livre, ruptura sintática, imagens sensoriais intensas e ironia estrutural. Não há unidade narrativa, mas uma lógica de mosaico, em que os textos se articulam por campos semânticos e não por continuidade temática linear. 

Essa fragmentação não é falha estrutural, mas escolha estética coerente com o projeto da obra: representar um mundo desorganizado por meio de uma linguagem igualmente instável. Do ponto de vista filosófico, a obra dialoga com o existencialismo e com o niilismo crítico, ao expor a crise de sentido, a falência das grandes narrativas sociais e a desconfiança em relação a valores universais. 

Entretanto, não se trata de um niilismo absoluto: há traços de um humanismo trágico, no qual, apesar da crítica à humanidade como espécie — expressa em poemas que retratam o homem como agente de destruição ambiental e simbólica  —, ainda subsiste uma sensibilidade afetiva, uma busca por sentido e uma recusa à indiferença total.

Formalmente, Delírio Absoluto da Multidão Atônita recusa a função decorativa da poesia e a substitui por uma função disruptiva. A linguagem não serve para consolar, mas para inquietar; não para estabilizar, mas para desestabilizar; não para harmonizar, mas para tensionar. O livro constrói, assim, uma poética do desconforto, em que o leitor não é convidado à contemplação, mas ao confronto.

Em síntese, a obra de Michel F.M. configura-se como um projeto literário denso, crítico e contemporâneo, que compreende a poesia como espaço de conflito simbólico e de resistência discursiva. Delírio Absoluto da Multidão Atônita não busca agradar, mas provocar; não busca consenso, mas ruptura; não busca beleza tradicional, mas verdade simbólica. 

Trata-se de uma poesia que assume sua função ética e política, ao mesmo tempo em que preserva complexidade estética e profundidade filosófica, consolidando-se como uma produção relevante no panorama da literatura contemporânea brasileira.